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Paris – Bruxelas – Amsterdam – Set 2015

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Depois de terminar o meu maior desafio – que era concluir o PBP2015 dentro do tempo limite de 90 horas – eu descansei alguns dias na casa do meu amigo Luis Poffo e sua família, no interior da França. Depois dessa parada de alguns dias, eu fui até Amsterdam de bicicleta, atravessando a Bélgica. Foram cerca de 800 quilômetros, percorridos em uma semana, por estradas secundárias no interior da França, Bélgica e Holanda.

Paris Brest Paris 2015 – 1230km em 88 horas – #pbp2015

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O maior evento do ciclismo de longa distância do mundo! Quase 4 dias percorrendo o interior da França, num total de 1230 quilômetros.

Atlântico ao Pacífico – Expedição Libertad

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RELATO COMPLETO POSTADO EM FEV 2015

EXPEDIÇÃO LIBERTAD – ATLÂNTICO AO PACÍFICO DE BICICLETA

Leônidas Moro Harger

 

Agradeço a ajuda e apoio dos meus grandes amigos e incentivadores Leonardo Poffo, Henrique Santos, Jhonatan Balchack, Diogo Raffo Prevedello e Guilherme Moro

 

Já passava um pouco das 11 horas da noite do dia 28 de janeiro de 2014 quando entramos na cidade de Vinã del Mar. Naquele dia tínhamos pedalado 150 quilômetros e estávamos exaustos. Atravessamos a cidade e chegamos à beira da praia. Não demorou muito para encontrarmos o Gui e o Mamado, que estavam nos esperando desde o final da tarde daquele dia. Nos abraçamos e comemoramos com um mergulho nas águas geladas do Oceano Pacífico. Eu sentia muita alegria por encontrar meus amigos depois de um mês de viagem. O Pardal tinha levado na sua bagagem uma garrafa de vinho argentino que ele comprou no alto da Cordilheira dos Andes. Abrimos aquela garrafa e brindamos ali mesmo na praia. Durante a madrugada foram outras garrafas de vinho e muita conversa. Eu lembro que acordei no dia seguinte e não tinha vontade de fazer muita coisa. Um cansaço físico e emocional intenso tomou conta de mim nos dias seguintes.  Foi o reflexo da viagem com pouco descanso, pois eu tinha pedalado cerca de 3200 quilômetros em um mês (além de outros 500 km de carona, ônibus ou barco). Ficamos mais uma semana no Chile, passeando e conhecendo a região, mas eu não tinha quase vontade de sair do hotel. Meus amigos estavam num ritmo de férias enquanto eu estava num clima de fim de festa. Só pensava em dormir e descansar.

IDÉIA

Quando viajo de avião fico olhando pela janela e imaginado como é a vida das pessoas que estão lá embaixo. Olho as estradas e fico pensando como deve ser viajar naquele lugar.

No ano de 2012 eu fui num feriado ao Chile e fiquei impressionado com a Cordilheira dos Andes. Quando o avião estava passando por cima daquela cadeia de montanhas, olhei para todos os lados e não pude ver onde ela acabava. As regiões de montanhas sempre me atraíram de um jeito diferente, então comentei com o meu amigo que estava ao lado sobre a possibilidade de alguém sobreviver num lugar como aquele. A conversa foi evoluindo e debatemos se existiam estradas naquele lugar e se era possível atravessar aquelas montanhas de carro ou de moto. Eu preferi não comentar com o meu amigo, mas fiquei viajando em meus pensamentos sobre fazer algum dia aquela travessia de bicicleta.

Cordilheira dos Andes vista de cima.

Chegando a Curitiba eu fui pesquisar e descobri que umas das estradas mais importantes da América do Sul é justamente a rodovia que liga a cidade de Mendoza-ARG com o Chile. Existe um porto muito importante na cidade de Valparaíso-CHI, no oceano pacífico. Muitos caminhoneiros da Argentina e até do Brasil levam e buscam cargas para o porto, usando aquela rota, que corta a Cordilheira dos Andes. Também vi que muitas pessoas já tinham feito essa travessia de bicicleta. Normalmente ela leva em média uma semana e é feita no verão, para evitar as temperaturas negativas extremas do inverno. Com o tempo fui lendo relatos de viajantes e aprendendo mais sobre a região e, então, decidi que iria fazer a travessia da Cordilheira de bicicleta. Só faltava decidir quando e como.

PLANEJAMENTO

Eu já tinha feito algumas viagens de bicicleta e a ideia de pegar um avião até a Argentina para depois fazer a travessia de bicicleta começou a me incomodar. Então pensei: “Porque não ir até lá de bicicleta também?”. Fui ao Google Mapas e vi que a distância entre Curitiba e Valparaíso é algo em torno de 3.000 km, saindo de Curitiba e indo diretamente para o oeste. O ideal para fazer uma viagem de bicicleta é percorrer no máximo 100 km por dia. Assim eu vi que poderia fazer essa travessia completa no período de um mês. Mas, como estava pensando em fazer a viagem no verão, resolvi esticar um pouco a viagem. Ao invés de ir para o oeste, tracei a rota indo para o Sul e Leste, para aproveitar e pegar um pouco de praia no começo da viagem. Isso aumentaria em pelo menos 400 km a distância total, mas eu percorreria uma boa parte do litoral sul do Brasil antes de virar para o Oeste. Por consequência acabei definindo o objetivo da expedição – do Atlântico ao Pacífico. O objetivo e o rota estavam definidos, faltava definir a data de partida.

Rota prevista – passando pelo litoral sul do Brasil

 

Considero o planejamento a parte mais importante de uma longa empreitada, de bicicleta ou por outros meios convencionais. Tive vários compromissos profissionais nessa época e o tempo foi passando sem conseguir planejar a viagem. Percebi que iria acabar não conseguindo organizar tudo e, quanto mais o tempo passava, a minha ideia parecia mais absurda e improvável. Então, sem pensar muito, entrei no site da TAM e comprei uma passagem para voltar de Santiago-CHI / Curitiba, prevista para o dia 03 de fevereiro. A data de partida não estava definida, mas a data máxima de chegada já estava marcada! Agora eu precisava me organizar para sair em tempo de chegar lá e pegar o avião da volta.

Os meses seguintes foram de muito planejamento e treinamento. Comprei alguns equipamentos e, com ajuda de meu amigo Gustavo da Klemba Bikes, montei uma mountain bike aro 29 nova. Decidi que iria partir em algum dia perto da metade do mês de dezembro. Assim teria alguns dias a mais para me proteger de imprevistos. Alguns meses antes de partir meus amigos Henrique Santos e Diogo Raffo (Pardal) decidiram que iriam fazer a expedição comigo, ou pelo menos alguma parte dela. O Henrique só iria conseguir alguns dias livres a partir do dia 28 de dezembro e o Pardal só poderia se juntar à expedição no final de janeiro, a partir do dia 20. Com isso tive que adiar um pouco a data de saída para o dia 28 e acabamos perdendo vários dias que seriam importantes para fazer o trajeto completo de bicicleta. Assim, provavelmente, teríamos que percorrer algum trecho da jornada de carona ou até de ônibus.

Nos últimos dias antes da partida meu amigo Jack Demarch também decidiu nos acompanhar até Balneário Camboriú no início da expedição.

 

PARTIDA

Tudo pronto! No dia 28 de dezembro as 10:00 da manhã saímos pedalando da minha casa, no Bacacheri em Curitiba, rumo ao Sul do Brasil. Tivemos boas companhias nos primeiros 20 km. Minha irmã Mônica e meus amigos Leonardo (um dos meus maiores incentivadores), Marcelo e Jhonatan (Mamado) decidiram ir pedalando junto com a gente até a saída de Curitiba. Também fomos acompanhados por uma chuva fina e por aquele frio que só Curitiba tem em dezembro. Logo que entramos na BR-376 nos despedimos dos nossos amigos e partimos para o inicio da expedição. Dali em diante era apenas eu, o Henrique e o Jack.

Eu já conhecia Jack a alguns anos, mas nunca tinha pedalado uma longa distância com ele. Por isso fiquei pensando se ele conseguiria acompanhar a gente e chegar até Santa Catarina levando vários quilos de carga na bagagem. A minha preocupação se mostrou totalmente infundada quando vi que ele estava pedalando firme e tranquilo depois de vários quilômetros nas longas subidas antes de descer a serra do mar.

Estávamos no período de feriados de fim de ano e tinham muitos carros na estrada que desciam a serra muito devagar. Em alguns momentos o trânsito de automóveis e caminhões chegava a ficar totalmente parado. A gente, andando em cima de bicicletas, descia mais rápido do que os carros, a cerca de 70 km/h. Isso nos deu uma sensação de liberdade muito grande e a impressão de que viajar de bicicleta é uma opção mais rápida e muito mais divertida do que de carro.

Chegada em Balneário Camboriu – Henrique e Jack

Depois que terminamos a descida da serra a diferença de temperatura era enorme em relação a Curitiba. Lá em cima estava frio e chuvoso e ao nível do mar estava muito calor. Por isso diminuímos o ritmo e chegamos em Joinville já durante a noite. Meu primo Célio nos recebeu em sua casa com um bom cachorro quente, banho e cama.

A conclusão do percurso previsto para o primeiro dia foi muito importante para a gente confirmar o planejamento e dar motivação para o restante da jornada.

Acordamos no dia seguinte e seguimos para o sul debaixo de um sol muito quente. Tivemos que parar várias vezes por causa do calor. No começo da tarde ficamos deitados em uma sombra por cerca de 2 horas até o sol dar uma trégua. Chegamos em Balneário Camboriú ainda de dia. Fomos ao apartamento do Guilherme (Gui), onde vários amigos estavam nos esperando. Comemos e bebemos muito para comemorar a conclusão dessa primeira etapa da viagem. Fomos dormir bem tarde e no dia seguinte Jack voltou para Curitiba de ônibus. Valeu pela companhia Jack!

Virada de de ano – Gui e Pardal

Era dia 30 de dezembro e estávamos acompanhados de vários amigos que nos convenceram a esperar dois dias, para poder aproveitar a festa de réveillon. Aceitamos o convite e ficamos descansando ali. No dia seguinte tivemos uma festa muita legal junto com todos os amigos.  Ainda tive a felicidade de aproveitar a companhia da minha Mãe e da minha irmã Mônica, que também foram até a casa do Gui para passar a virada com a gente.

DESPEDIDA DO ATLÂNTICO

Nos primeiros dias da viagem eu já tinha percebido que estava levando excesso de peso na bagagem. Aproveitei essa parada para descartar itens que eram desnecessários, como tênis, calça jeans e algumas camisetas. Eu e o Henrique, depois de terminarmos a arrumação, partimos muito tarde, perto das cinco horas da tarde. Mesmo assim, com um bom vento a favor, ainda conseguimos percorrer 90 km naquele primeiro de janeiro.

Florianópolis – SC

Logo após passarmos por Florianópolis tive um pequeno acidente. Eu estava numa descida com bastante velocidade e, no meio de uma curva, bati em uma daquelas ‘tartarugas’ que ficam no chão para demarcar o caminho para os carros. Com o impacto, uma das malas do meu alforje dianteiro caiu na estrada e um caminhão passou por cima. Outra mala traseira também se soltou e entrou no meio da minha roda, fazendo com que o pneu travasse até a bicicleta parar. Por sorte eu consegui me equilibrar e não caí, a minha roda ficou um pouco torta, mas nada de grave.

O maior problema foi com aquela mala que o caminhão passou em cima, pois era onde estavam minha câmera “GoPro” e meus produtos de higiene pessoal, entre eles pasta de dente, desodorante, alguns remédios e um vidro de perfume. A câmera virou pó e todos os frascos estouraram dentro da mala e os líquidos se misturaram, fazendo com que a minha bagagem ficasse impregnada com um forte cheiro de perfume. O Henrique riu muito da situação e toda hora ficava zombando, dizendo algo como: “Pelo menos agora a gente vai pedalando e  seduzindo, porque aonde a gente for o teu cheiro já chega uns 10 minutos antes. Daqui a pouco vão começar a lhe oferecer carona gratuita”.

Esse pequeno imprevisto ainda me mostrou que eu estava levando muito mais coisas do que realmente precisava. Com o tempo fui descartando mais itens de higiene pessoal e outras coisas sem utilidade prática. Dali em diante os dias foram muito parecidos. Acordávamos no meio da manhã, tomávamos café e pedalávamos até o final da tarde pela BR-101. Quando já estávamos cansados, procurávamos um hotel barato na beira da estrada para passar a noite.

Oceano Atlântico – Rio Grande do Sul

Chegamos a Torres-RS no dia 04 de janeiro, onde acampamos pela primeira vez na expedição. No dia seguinte fomos até a praia de Imbé. No início fomos pela tranquila RS-389 – também conhecida como Estrada do Mar. Nos últimos quilômetros resolvemos pedalar pela areia da praia. Aquela foi a última oportunidade de ver o mar até o final da viagem. No dia seguinte viramos rumo a Porto Alegre, usando o Freeway (estrada proibida para bicicletas), onde tive meu primeiro pneu furado e o Henrique teve o único acidente da expedição.

ACIDENTE COM O HENRIQUE

Estávamos perto de Osório-RS. Eu ia pedalando a uns 50 metros na frente, com os cata-ventos da usina eólica ao fundo. O Henrique achou a paisagem bonita e resolveu tirar uma foto, mas não pensou em parar a bicicleta para regular a câmera. Nesse momento de distração ele não viu um baita buraco no acostamento e caiu de cara no asfalto. Por muita sorte ele caiu no acostamento e nenhum carro o atingiu. Depois que o susto passou, vimos que ele teve apenas alguns arranhões e hematomas e, então, seguimos viagem. Agora foi a minha vez de zombar: “E aí? A foto ficou bonita?”.

Chegamos em Porto Alegre e fomos recebidos na casa da minha irmã Maria da Graça e do meu sobrinho Alexandre. O Henrique não tinha mais tempo disponível nas suas férias e confirmou o que já tinha planejado antes, que ali seria o fim da expedição para ele.

Henrique em Osório. Cata-ventos de energia aeólica ao fundo.

Foi muito bom pedalar com o Henrique até Porto Alegre. Mas foi mais do que isso. Ele tem um papel fundamental na minha vida de ciclista, pois foi uma das pessoas que mais me incentivou, alguns anos atrás, a começar a viajar de bicicleta. O Henrique também me ajudou a ver “um outro lado da vida”, onde existem coisas muito mais importantes para um homem do que aparência e sucesso profissional. Esses dias de jornada serviram para confirmar a referência que eu tinha dele como atleta e ser humano. Iria ser muito difícil continuar a viagem sem a companhia dele. Mas, viajar sozinho já era parte do planejamento desde o início, então, no dia seguinte, ele pegou o avião para Curitiba e eu virei meu guidão em direção ao Oeste rumo Uruguaiana. Muito obrigado pela parceria Henrique!

SOZINHO

No dia seguinte atravessei o Rio Guaíba de barco e segui rumo ao Oeste. Como foi difícil esse recomeço! Dali em diante a estrada era muito ruim, com acostamentos pequenos e cheios de buracos. Além de muito sobe-desce, tinha um forte vento contra que fazia com que as pedaladas ficassem ainda mais difíceis. “Se pelo menos o Henrique ainda estivesse aqui, seria mais fácil”, pensei. Aquele momento talvez tenha sido o único em que eu cogitei desistir durante toda a viagem.

Mas, chegando perto da cidade de Butiá-RS, conheci um ciclista muito especial. O nome dele era Edimar, mas todo mundo conhece pelo apelido de Graxa – uma referência ao seu antigo ofício de engraxate. O Graxa me contou que sofre de uma doença desde criança e por isso não consegue trabalhos formais nas empresas da região. Ao contrário da maioria de nós, simples mortais, que muitas vezes nos encostamos em pequenos problemas para justificar nossas frustrações, o Graxa usa o problema dele como solução para sua vida.

Butiá – RS – Graxa e umas de suas bicicletas modelo deitado.

Ele não consegue emprego, então leva a vida andando de bicicleta. Com isso ele ficou conhecido na região e consegue patrocínio com as empresas para participar de provas de ciclismo e continuar a andar de bicicleta. Depois de alguma conversa ele me convidou para conhecer a sua casa e passar a noite na cidade de Butiá. Eu senti confiança nele e aceitei o convite.

A casa dele era extremamente simples, mas eu fiquei confortavelmente instalado em um quarto de hóspedes. Fomos jantar a noite e ele ainda fez questão de pagar a conta. Em sua casa ele me mostrou orgulhoso a sua coleção de bicicletas e várias medalhas de provas Audax que completou. Também me contou das suas viagens de bicicleta pelo sul do país e da sua vida com sua namorada.

Fiquei muito feliz por ter conhecido uma pessoa tão especial naquele momento. Dali em diante eu não pensei em desistir mais da viagem. Acredito que ainda vou me lembrar dele por muito tempo quando eu estiver em algum momento que pareça muito difícil, de bicicleta ou não.

URUGUAIANA

Segui viagem para o Oeste e cheguei a Uruguaiana, onde fui muito bem recebido na casa do meu amigo Celso e sua família. Descansei um dia por lá. Aproveitamos para atravessar a ponte e ir até a Argentina comprar algumas coisas. De noite saboreamos um belo churrasco com carne e cerveja argentinas. O Celso me indicou uma bicicletaria  que fez uma boa revisão na bike e não cobrou nada pelo serviço.

Na manhã seguinte, eles foram comigo de carro até a cidadezinha de Barra do Quarai-RS, que faz divisa com o Uruguai, a 70 km dali. Nos despedimos, tiramos fotos e atravessei a ponte que separa o Brasil do Uruguai pedalando.

URUGUAI

Já no outro lado do rio tive que parar na aduana para fazer alguns procedimentos burocráticos para registrar a minha entrada no país. Dali em diante pedalei, numa reta com muito pouco movimento de carros, por cerca de 150 km, até a cidade de Salto. Lá troquei alguns reais por pesos uruguaios e comprei alguns mantimentos num supermercado.

Costumo levar pouco dinheiro em espécie comigo. Quando chego em alguma cidade vou a um caixa eletrônico e tiro algum dinheiro, ou faço minhas compras no cartão de crédito. Como fiquei apenas dois dias no Uruguai, os poucos pesos que eu tinha trocado me serviram naquele país.

Atravessei o Rio Uruguai de barco e cheguei na cidade de Concórdia-ARG.

ARGENTINA, SEM DINHEIRO

Logo na chegada perdi algum tempo, no pequeno posto da aduana, com bastante burocracia. O funcionário me fez várias perguntas de uma forma muito pouco simpática. Queria saber de onde eu vinha, para onde ia, quanto tempo iria levar, essas coisas. Outro policial me abordou falando que precisava revistar toda a minha bagagem. Isso seria bastante inconveniente naquele momento, pois eu perderia bastante tempo para tirar tudo, ser revistado e arrumar todas as coisas novamente nos alforjes. Mas, como demostrei naturalidade e fiquei calmo com a abordagem, o policial acabou desistindo e me deixou passar sem a revista completa.

Eu não tinha nenhum dinheiro em moeda argentina. A minha ideia era ir até o centro da cidade de Concórdia e tirar alguns pesos antes de seguir viagem. Saindo do porto, para chegar ao centro, eu teria que seguir em frente e depois virar à direita, seguindo por mais uns 5 km. Mas aconteceu uma coisa que eu não previa. A saída do porto dava dentro de uma favela enorme. Logo um carro emparelhou comigo e o casal que estava dentro perguntou o que eu estava fazendo ali. Eu, sem parar de pedalar, falei que tinha acabado de chegar pelo porto e estava de passagem. Eles me responderam dizendo que deveria virar na primeira à esquerda e sair dali, no sentido contrário do caminho para a cidade, pois se continuasse ali eu seria assaltado. Não senti aquilo como uma ameaça, era mais um aviso por preocupação, pois provavelmente acharam que eu estava perdido. De qualquer forma, virei na primeira à esquerda e segui viagem, saindo da cidade.

Acabei não conseguindo sacar o dinheiro antes de ir pra estrada, mas pensei: “Na próxima cidade eu vou até um caixa eletrônico ou faço compras no cartão”. O problema era que não tinha nenhuma cidade com caixa eletrônico no caminho. Os restaurantes da estrada também não aceitavam cartão. Na verdade, quase nenhum estabelecimento comercial no interior da Argentina aceita. Os próprios postos de gasolina também não aceitavam. Algumas vezes o posto até aceitava, mas a loja de conveniência dentro do posto não. Então eu ficava dependendo da boa vontade do balconista em passar o cartão no posto, pegar o dinheiro e me vender alguma comida ou refrigerante na loja. Acredite, consegui fazer essa transação apenas uma vez em várias tentativas.

Por sorte eu ainda tinha vários mantimentos que havia comprado no supermercado do Uruguai. Em várias vezes eu ganhei comida e água das pessoas que vinham conversar comigo, mesmo sem ter pedido. Em uma oportunidade eu estava acampando atrás de um posto de gasolina quando o frentista veio falar comigo e me deu um dinheiro. Eu recusei, mas ele falou: “Pegue, você vai precisar para continuar a viagem”. Acabei pegando o dinheiro, mesmo sem saber ao certo quanto valia aquela quantia. Depois, fazendo as contas, vi que era alguma coisa equivalente a dois reais.

Eu já sabia que estava um pouco atrasado em meu planejamento inicial e precisaria mesmo pegar um ônibus para encontrar o Pardal no dia programado. Então, quando entrei na cidade de Paraná (isso mesmo, é uma cidade que se chama Paraná), fui direto à rodoviária. Lá fiquei sabendo que não poderia levar a bicicleta dentro do ônibus, como uma bagagem comum, do jeito que fazemos no Brasil. Eu teria que achar uma empresa de transporte de cargas e despachar a bicicleta separadamente. Achei a tal empresa dentro da própria rodoviária e o balconista me explicou que eu teria que desmontar a bicicleta inteira para fazer o envio. Quando estava desmontando e embalando a bicicleta um sujeito veio falar comigo. Ele falava português perfeitamente e disse que também viajava de bicicleta.

Acampamento perto de Villaguay – ARG

Ele se dispôs a me ajudar, negociou o envio da bicicleta (com o pagamento na retirada) e achou a melhor opção de passagem para eu ir até Córdoba de ônibus. Ficamos conversando mais um tempo e acabamos descobrindo que somos primos muito distantes, pois temos o mesmo sobrenome (Moro) e os antepassados dele vieram da Itália para a América no mesmo período que os meus. Ele também quis me dar algum dinheiro, que eu acabei recusando, pois achei que ele já tinha me ajudado bastante. Nos despedimos e fui procurar algum lugar para comer.

Muito provavelmente pela minha péssima aparência (e cheiro), nenhum restaurante aceitou me vender alguma coisa no cartão de crédito. Também achei que viajar de ônibus naquele estado seria uma falta de respeito com os outros passageiros. Então, fui procurar um lugar para tomar banho e também não achei. Nenhum posto de gasolina tinha chuveiro e todos os hotéis queriam me cobrar o valor inteiro de uma diária, por apenas um banho, e ainda queriam pagamento antecipado, em dinheiro.  “Solo efectivo”, eles diziam.

Quando eu já não tinha mais onde procurar, me lembrei do banheiro da rodoviária. Voltei lá e perguntei para o senhor que fazia a limpeza do local. Ele me respondeu que eu poderia tomar banho ali, mas precisava pagar. O valor era exatamente o quanto o frentista tinha me dado no dia anterior. Mais uma coincidência que me salvou naquele dia. Tomei um bom banho e coloquei roupas limpas. Agora, que eu estava limpo, fui aceito no primeiro restaurante e pude jantar tranquilamente enquanto esperava o ônibus.

O ônibus saiu a 1:00 da manhã e desembarquei em Córdoba perto das 6:00. Chegando lá, fui procurar tirar dinheiro, mas nenhum caixa eletrônico funcionava. De tanto tentar, acabei bloqueando o meu cartão. Agora eu estava ferrado mesmo!

Saí andando pelo centro da cidade e por sorte achei uma agência do Itaú por lá. A gerente foi muito atenciosa comigo e ligou para o Brasil para fazer o desbloqueio. Fui no caixa automático, dentro do próprio banco, e tirei uma quantia boa de pesos argentinos.

Com dinheiro na mão, fui resgatar a minha bicicleta. Lá, o balconista me avisou que umas das notas (que eu tinha acabado de tirar no caixa) era falsa. Muito contrariado aceitei o que ele dizia, mas fiquei com a nota para recordação. Montei a bike e fui conhecer melhor a cidade de Córdoba.

PARADOR DEL CONDOR

Planetário Estación Astrofísica de Bosque Alegre – Falda del Carmen – ARG

No dia seguinte segui pedalando. Logo a oeste de Córdoba existe uma cadeia de montanhas chamada Altas Cumbres. Eu sabia que existia um restaurante lá no alto, a uns 80 km dali, onde muitas pessoas param para tirar fotos da paisagem em um mirante. Pelo nome (Parador del Condor) pensei que seria um bom lugar para passar a noite. Cheguei perto das 22:00. Conversando com a balconista, ela achou estranho eu querer passar a noite ali, pois ela já estava fechando o lugar e ninguém ficava por lá durante a noite.

Mesmo assim fui improvisar um acampamento ao lado do restaurante, perto do mirante e embaixo de alguns pinheiros. Como aquela era uma montanha muito rochosa eu não consegui fincar no chão os pinos que fazem a fixação da minha barraca. O jeito foi passar a noite apenas com o saco de dormir, sem a proteção da barraca, mas com a minha faca ao lado.

No meio da noite apareceram 3 pessoas perguntando se poderiam entrar ali para tirar fotos. Eu levantei e fui conversar com eles. Eles ficaram olhando desconfiados para o meu “acampamento”. Uma menina viu a minha faca e começou a gritar alguma coisa enquanto corria: “Ele tem uma faca, ele tem uma faca!”. Eu peguei a faca e tentei explicar que aquilo era para me proteger. Mas eles ficaram com mais medo e todos saíram correndo, entraram no carro e fugiram sem ouvir a minha explicação, e sem tirar as fotos.

Altas Cumbres – ARG

O resto da noite foi bem complicado, pois ventava muito lá em cima e parecia que as árvores iriam cair na minha cabeça. Quase não consegui dormir. Pela manhã tomei café no restaurante e voltei a subir a montanha ainda cedo. Cheguei perto de 2700 m de altitude no topo das Altas Cumbres, depois desci pelo outro lado até a cidade de Mina Clavero. Essa pequena cidade é um balneário muito badalado na beira do rio, ande tomei banho e fiquei relaxando por várias horas durante a tarde. Eu precisava mesmo descansar, pois no dia seguinte iria começar um dos trechos mais difíceis da expedição.

LA MUERTE

Eu tinha duas opções de rota para chegar até Mendoza. Na primeira eu teria que ir um pouco mais ao sul, passando pela cidade de San Luis. Essa rota é bem movimentada e com bastante comércio, mas eu levaria mais de 4 dias até Mendoza.

A outra alternativa era seguir reto, sentido Encon, numa rota um pouco mais curta, mas muito mais deserta. Escolhi essa segunda opção. Dali em diante eu percorreria cerca de 500 km, em três dias, numa região desértica, com quase nenhuma cidade ou vila no caminho.

Comprei um garrafão de 10 litros de água e coloquei em cima do meu bagageiro da frente. Tinha outro de 5 litros no bagageiro traseiro, além das minhas 2 garrafinhas com 1 litro cada. Ao todo eu estava levando cerca de 17 litros de água. Levando em conta que eu conseguiria reabastecer pelo menos mais uma vez, de sede eu não iria morrer. Aproveitei e também reforcei meu estoque de comida.

De noite parei num posto de combustíveis e algumas pessoas vieram falar comigo. Perguntaram para onde eu estava indo e eu respondi que iria até Mendoza. Eles me perguntaram se eu iria por San Luis. Quando eu falei que seguiria por Encon, eles se olharam e um deles falou algo como: “No ir al desierto. El desierto es la muerte!”. Mesmo assim eu me sentia preparado e na manhã seguinte “taquei-lhe o pau” na estrada.

No final do primeiro dia, já de noite, cheguei a vila de Luján, depois de 150 km. Por incrível que pareça eu achei uma pousada muito confortável com chuveiro a gás e acesso a internet, no meio do nada. Negociei o pernoite com a proprietária e paguei adiantado. Quando eu estava no quarto, fui contar o meu dinheiro e percebi que aquela nota “falsa” não estava mais comigo. Provavelmente eu tinha dado, sem perceber, como pagamento alguns minutos antes. Pensei em ir falar com a proprietária e pedir a nota de volta, mas fiquei preocupado de ela não entender a situação. Então, pela manhã, com medo de ela achar a nota e chamar a polícia, acordei bem cedo e fui embora sem tomar café.

O vento estava um pouco a favor e consegui manter uma média relativamente boa nesse momento, apesar do calor intenso. Eu queria passar por um deserto de sal, chamado Pampa de Las Salinas. Para isso eu teria que pegar uma estrada secundária, virando à direita, e andar cerca de 30 km. Chegando nessa estrada, eu deixei meu garrafão de água escondido em uma moita e virei à direita. Dei de cara com um forte vento contra. Pedalei por cerca de 10 km e desisti da minha visita às Salinas. Um pouco frustrado, voltei para a estrada principal, recuperei a minha água, e segui viagem.

Algumas horas depois eu já conseguia ver pela primeira vez a cadeia de montanhas da Cordilheira dos Andes no meu horizonte, a mais de 200 quilômetros de distância.

Nesse dia tive muitos problemas com meus pneus. Como o clima estava muito quente, e eles estavam com a calibragem máxima, eles começaram a furar sozinhos, por causa do calor. Então tive que começar a andar com os pneus mais vazios que o normal, fazendo com que as pedaladas ficassem cada vez mais difíceis.

Outro grande problema era que a estrada de mão simples não tinha acostamento (como a maioria das estradas no interior da Argentina). Mas, ali, a vegetação ao redor era formada por pequenos arbustos, com galhos espinhentos, que deixavam as laterais da estrada cobertas de espinhos. Com isso, ficava praticamente impossível sair da estrada. Quando vinha um caminhão grande na minha pista eu tinha que ficar bem na direita, quase caindo da pista. Muitas vezes, principalmente quando vinham caminhões nos dois sentidos, eu tinha que parar a bicicleta e sair da pista para não ser atropelado. Assim os espinhos acabavam furando o meu pneu. Isso aconteceu várias vezes e eu cheguei a trocar meus pneus mais de 10 vezes em apenas um dia.

Eu tinha em meus mapas uma marcação de que existia uma vila a 150 km do ponto onde saí pela manhã. Ao final da tarde, quando eu já tinha percorrido essa distância, passei por um posto da polícia, mas não vi a tal vila. Imaginei que ela estaria um pouco mais adiante e segui em frente.

Lá, durante o verão, escurece bem tarde, perto das 21:00. Pedalei bastante e nada de ver nenhuma casa. A noite foi chegando e quando já estava escuro eu percebi que não conseguiria achar um lugar seguro para acampar no meio daqueles espinhos, no escuro. Quando parei para analisar a situação, eu estava no meio do deserto, sem ter onde parar para dormir. Então segui em frente.

Eu estava muito cansado e com bastante sono. Algumas vezes eu parava de pé no canto da estrada e fechava os olhos, por alguns segundos, para recuperar as energias, depois seguia pedalando. Já era perto da meia noite quando eu consegui sair um pouco da estrada e coloquei a bicicleta deitada no chão. Então, sem planejar, deitei por cima dela, usando uma mala como travesseiro, me protegendo dos espinhos. Fiquei alguns minutos olhando para o céu.

Impressionante como é ver as estrelas numa região como aquela. Parecia que dava para tocar nelas. Acabei dormindo ali, em cima da própria bicicleta. Acordei uma hora depois. Quando olhei para trás vi uma lua enorme e alaranjada subindo no horizonte. Aquela lua foi subindo e iluminando a estrada.

A luz da lua me reanimou. Então levantei e segui pedalando. Perto das 3:00 da manhã, depois de 240 km, cheguei na vila Encon – que na verdade era apenas um posto de pesagem de caminhões e venda de gasolina. Parei ali e alguns caminhoneiros vieram me oferecer água. Tomei muita água e acabei dormindo ali mesmo, deitado no chão do posto de gasolina.

CHEGANDO EM MENDOZA DE CARONA

Perto das 6:00 da manhã os caminhões já começavam a ligar os seus motores, fazendo muito barulho. Não consegui dormir e descansar mais do que 3 horas naquela noite. Dali em diante faltavam 150 km até Mendonza, onde eu iria encontrar o Pardal.

Aquele velho vento contra me recebeu com muita força logo no começo da manhã. Eu estava muito cansado e sem energias para continuar pedalando. Então, lá pelas 10 da manhã decidi tentar uma carona. Depois que tomei essa difícil decisão, demorou mais de meia hora para passar algum carro ou caminhão por mim. Os poucos carros que passavam iam muito rápidos e nenhum parava. Então, desisti de pegar carona e segui viagem.

Eu estava extremamente cansado e parei num canto da estrada lá por 1:00 da tarde, quando eu já tinha andado cerca de 100 km. Então parou uma Van com um casal de argentinos e perguntou se eu precisava de ajuda. Na hora eles colocaram minha bike na parte de trás da Van e me levaram até a cidade de Mendoza de carona.

Fui direto ao Hostel onde estava hospedado o Pardal. Foi muito emocionante encontrar o meu amigo depois de tantos acontecimentos.

MENDOZA

Em Mendoza saímos para passear e tomamos bastante cerveja para comemorar o encontro. Acabamos conhecendo algumas pessoas e fizemos amizade com um pessoal que também anda de bicicleta por lá. O German, a Elisa, a Rocio e a Yamila nos levaram para conhecer a cidade de bicicleta e fomos a vários parques.

Ao contrário da cidade onde moro, lá as pessoas ficam nos parques até muito tarde. Já era madrugada, de um dia de semana, e ainda tinha muita gente (entre eles muitos idosos e crianças) reunida nos parques. Na verdade isso era uma rotina que eu vi em toda a Argentina. Tive a sensação de que lá eles dão mais valor para o convívio em família do que por aqui.

Nossos amigos nos contaram que a cidade de Mendoza foi construída no meio do deserto. Era para ela não existir, pois lá chove muito pouco e o clima é quente e seco. Para resolver o problema seus antepassados construíram dutos que trazem a água do desgelo das montanhas até ali. Assim, eles conseguem ter uma cidade moderna numa região onde pareceria impossível existir vida. Para eles a água é um bem muito valioso e é tratada como o símbolo da cidade.

No dia seguinte era aniversário do Pardal. Então nossos amigos nos proporcionaram uma festa diferente. Eles nos levaram de carro até a região rural da cidade para tomar banho de rio. Lá ficamos bebendo tererê e nos divertindo até o final da tarde. Aqueles dias anteriores, em que fiquei sozinho, me fizeram valorizar ainda mais aqueles momentos de amizade e descontração em Mendoza.

Eu já me sentia como se estivesse conquistado o meu objetivo. Mas ainda faltava a cereja do bolo, a Cordilheira dos Andes.

CORDILHEIRA   

No dia seguinte, 23 de janeiro, eu e o Pardal demos início a parte final da viagem. Novamente acordamos tarde, arrumamos as coisas com muita calma e caímos na estrada. Dali em diante teríamos pelo menos quatro dias de subida intensa, pela estrada que sobe paralela ao rio Mendoza, até chegar na fronteira com o Chile.

O nosso objetivo para o primeiro dia era chegar perto da represa de Potrerillos, a cerca de 80 km de Mendoza. Demoramos um pouco para sair da cidade e, logo que os prédios foram desaparecendo, começamos a ver as famosas vinícolas ao pé da Cordilheira. Então fomos obrigados a fazer algumas paradas estratégicas para ‘adquirir sem custos’ alguns cachos de uva direto do pé. Acabamos chegando já de noite na Vila de Potrerillos e acampamos num camping ao lado da represa.

De manhã pudemos ver a beleza do lugar, com o lago verde encravado no meio daquelas montanhas enormes. Ficamos ali um bom tempo contemplando a paisagem e tirando várias fotos. Depois continuamos subindo.

ACAMPAMENTO NAS MONTANHAS

Naquele dia tivemos a sorte de receber um forte vento a favor por um bom tempo, o que nos fez ganhar vários quilômetros, mesmo na subida. Passamos por algumas ruinas Incas e chegamos à vila de Uspallata ainda durante a tarde. Aproveitamos para comprar roupas para nos proteger do frio que viria pela frente. Voltamos para a estrada e nos concentramos em achar um local seguro para acampar antes de escurecer.

Já estava bastante frio e ventava muito naquela altitude. Depois de procurar por algum tempo, achamos um ótimo lugar para passar a noite. O lugar era um buraco gigante de cerca de 10 metros de raio, com alguns montes de areia e pedra em volta, que nos protegeriam do vento e do frio.

Montamos apenas uma barraca ali dentro e, para cozinhar e aquecer o lugar, fizemos uma fogueira em volta de algumas pedras. Durante o jantar ficamos conversando e comemorando o fato de aquele lugar ter nos aparecidos naquele dia. Era muito bom estar ali. Cada pedalada valeu a pena, pois sentíamos uma sensação de liberdade e felicidade, acampando no meio das montanhas dos Andes.

Mais tarde fui para perto da estrada e conferi que era impossível alguém ver de longe que estávamos ali. Estávamos seguros e aquecidos, então conseguimos ter uma boa noite de sono.

Pela manhã, estávamos levantando acampamento quando um carro parou na estrada e uma família desceu para tirar fotos, bem próximos da gente. Os dois filhos se afastaram do carro e ficaram fazendo poses, com as montanhas ao fundo, enquanto os pais batiam as fotografias. Ficamos ali dentro do buraco, só observando. O filho não viu a gente e foi se aproximando do nosso ‘esconderijo’. Quando ele chegou a alguns metros, o pai nos viu, e começou a gritar, alguma coisa como: “Fodeu! Pablo! Fodeu! Saia daí!” O Pablo, sem entender, continuou se aproximando, até que chegou bem perto e ficou paralisado quando nos viu. Nós, tranquilamente, falamos: “Bom dia!”. Ele respondeu o comprimento e saiu correndo. Todos entraram no carro e foram embora e, assim como aconteceu no Parador del Condor, nós não tivemos tempo de explicar o que estávamos fazendo ali.

PARQUE ACONCÁGUA

Terminamos de levantar acampamento e continuamos subindo. Além do rio que sobe paralelamente à rodovia, também existe uma estrada de ferro desativada que segue na mesma direção. Aproveitamos para parar em uma das várias estações de trem abandonadas na hora do almoço e ficamos ali por algumas horas.

No final da tarde, já com muito vento contra, passamos em frete à entrada do Parque Provincial Aconcágua.  Essa região é muito frequentada por montanhistas, pois o Cerro Aconcágua é a montanha mais alta das Américas e o ponto mais alto fora da cadeia do Himalaia. No lugar onde estávamos conseguíamos ver o topo daquela montanha coberto de neve e especulamos a possibilidade de um dia escalarmos aquele cume. Quem sabe…

O Pardal começou a sentir fortes dores nos joelho e tivemos que diminuir ainda mais o ritmo das pedaladas. Estava bastante frio e ventando muito. Com muita dificuldade chegamos até a estação de esqui de Penitentes. Lá existem alguns hotéis onde ficam hospedados esquiadores e montanhistas. Entramos no primeiro hotel e fomos nos informar dos valores. Todos nos olharam de uma forma muito estranha e nos passaram um valor absurdo para uma noite. Saímos dali e, um pouco mais a frente, achamos um recanto muito confortável, com chuveiro quente, por um preço razoável.

Cemitério dos Andinistas

Pela manhã continuamos subindo e chegamos ao Cemitério dos Andinistas. Nesse lugar estão enterrados alguns montanhistas que morreram tentando escalar o Aconcágua, entre eles alguns brasileiros. Em vários casos onde não foi possível resgatar o corpo, os amigos deixaram algum objeto pessoal como um par de botas e até a escova de dente na lápide do Andinista.

Aquele lugar fez a gente refletir. Ficamos pensando se vale a pena todo o esforço de uma aventura para no final acabar num lugar como aquele… Eles morreram fazendo o que mais gostavam. Eles poderiam ficar em suas casas, tranquilos, mas escolheram levar a sua paixão ao limite e aproveitaram a vida ao máximo. Morreram no alto da montanha, mais perto do céu.

Pedalamos até as ruinas de Ponte del Inca. Estávamos andando entre algumas barracas de vendedores de produtos típicos quando, para nossa surpresa, encontramos nossos amigos de Mendoza passeando por lá. Ficamos ali um tempo conversando e tirando fotos com eles e continuamos a subida com o ânimo renovado.

Debaixo de uma chuva fina chegamos a localidade de Las Cuevas, a 3200 metros de altitude, já bem perto da divisa com o Chile, quando começou a nevar! Alguns dias atrás eu estava com muito calor no meio do deserto e agora estava pedalando na neve. Ficamos na rua por um bom tempo, aproveitando aquela experiência incrível, até que chegamos num hostel de montanhistas para passar a noite.

Neve em Las Cuevas – ARG

A fronteira era logo ali na frente. Existe um túnel conhecido como Passo Los Libertadores, a 3200 metros de altitude, que corta o restante da montanha e chega do outro lado, já no Chile. Essa é a rota usada pelos carros e caminhões que passam por ali. Mas a gente preferiu fazer uma rota alternativa, sem passar pelo túnel e sim por cima dessa última montanha.

O Morro do Cristo de Los Andes é um ponto turístico, que marca a fronteira entre a Argentina e o Chile, e tem a altitude de 4000 metros.  Para chegar até lá é preciso passar por uma estrada de chão, estreita e cheia de curvas. Lá em cima tem uma estátua do Cristo Redentor que simboliza a união dos dois países.

Saímos bem cedo do hostel e começamos a subida. No começo foi tudo muito tranquilo, mas com o tempo fomos sentindo cada vez mais o efeito da falta de oxigênio. Cada pedalada parecia mais difícil e tínhamos que parar para descansar muito mais vezes do que de costume. Os poucos automóveis que passavam pela gente buzinavam e nos incentivavam. Uma menina que passou de carro gritou algo como: “É de sacal el sombrero!”. Fomos subindo cada vez mais devagar, tendo que parar para descansar a cada cinco minutos. Chegamos lá em cima e muitas pessoas nos rodearam e vieram tirar fotos com a gente. Ganhamos até um café quente para nos esquentar. O Pardal chorou, abraçado no monumento do Cristo, e nós dois nos abraçamos e comemoramos muito por termos atingido o cume da nossa expedição. Quatro mil metros! Agora era só descer!

Pardal no Alto do Morro do Cristo

DESCIDA DA CORDILHEIRA

Esperei por aquele momento durante um mês. Durante toda a viagem eu ficava imaginando como seria descer a cordilheira de bicicleta. O momento chegou, mas não foi tão divertido quanto eu imaginava.

Logo que começamos a descida do Morro do Cristo começou a cair uma neve fina em cima da gente. Além de não estar com roupas adequadas para aquele frio, eu estava com os dedos das minhas luvas furados, o que fazia com que o gelo entrasse por ali.  Quanto mais aumentava a velocidade, mais frio a gente sentia. Eu queria sair logo daquele lugar e não pude curtir a descida como tinha planejado. Também tínhamos que tomar muito cuidado com o terreno de terra e cascalho, com várias pedras grandes e soltas. Qualquer descuido ali poderia ser fatal. Então tivemos que descer muito devagar, quase parando.

Nossas mãos já estavam muito doídas de tanto apertar o freio quando chegamos novamente na estrada principal, do outro lado do túnel. Eu comecei a passar mal por causa do frio. Então eu me encolhi o máximo que pude em cima da bike até chegarmos ao posto da aduana chilena.

Ruinas Incas na descida dos Andes

Cheguei na aduana tremendo muito de frio. Ficamos parados ali por um tempo sem saber o que fazer até chegarem alguns policiais que acharam que queríamos furar a passagem. Nos fizeram algumas perguntas e nos levaram para dentro do posto. Logo vieram vários cachorros para farejar a nossa bagagem, provavelmente procurando drogas. Como não acharam nada, nos levaram para uma sala para fazer os procedimentos burocráticos de imigração. Lá, foram muito simpáticos com a gente e, depois de alguns minutos, fomos liberados. Já recuperados do frio, continuamos a descida.

Chegamos a cidade de Los Andes ainda no final da tarde e achamos um hotel barato para passar a noite. Estávamos a cerca de 150 km de Vina Del Mar, onde terminaria a expedição e encontraríamos nossos amigos. Entramos na internet para falar com o Gui e com o Mamado e marcamos um local de encontro para a tarde do dia seguinte.

CHEGADA

Acordamos cedo na manhã seguinte, 28 de janeiro, e partimos para os últimos quilômetros da nossa viagem. Nas primeiras horas já conseguíamos sentir a diferença do ar em relação à Argentina. Ali o clima era muito mais úmido e estava muito mais fácil de respirar. Já estávamos nos sentindo em casa.

Tivemos alguns pneus furados e acabamos atrasando o nosso planejamento. Ficamos preocupados em chegar dentro do horário combinado com o Gui e o Mamado, então conseguimos entrar na internet, num posto de gasolina, e avisamos que iriamos atrasar algumas horas.

Seguimos pedalando e, devagarinho, fomos nos aproximando do litoral. Já passava das 23:00 quando chegamos a cidade de Vina Del Mar. Atravessamos a cidade e chegamos na praia. Depois de procurar um pouco, encontramos o lugar marcado para o encontro. Lá estavam o Gui e o Mamado nos esperando, junto com algumas pessoas que eles conheceram naquele dia.

Quando vi meus amigos, joguei a minha bicicleta no chão e fui correndo encontrá-los. Nos abraçamos e comemoramos muito. Entramos na água do mar no meio da noite. O Pardal tinha trazido uma garrafa de vinho argentino que ele comprou lá no alto do Morro do Cristo. Abrimos aquela garrafa e várias outras naquela noite. A comemoração só terminou de madrugada.

O Mamado e o Guilherme nos receberam

 

CwbPoa48h – Curitiba – Porto Alegre em 2 dias (48 h)

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DESAFIO CwbPoa48h

De Curitiba a Porto Alegre de bicicleta em 2 dias, sozinho, sem carro de apoio. Pascoa 2013.

 

 

Introdução – Viagem anterior para Porto Alegre, 2012 pela BR-116

Para fazer um ciclo-turismo prazeroso, e sem ter um desgaste físico excessivo, o recomendável é pedalar em média 100 km/dia. Essa média eu já tinha feito em outras viagens pelo Paraná e no litoral de Santa Catarina.

No final do ano passado (outubro de 2012) fiz uma viagem entre Curitiba e Porto Alegre de bicicleta pela BR-116. Naquela oportunidade eu levei 5 dias para completar o trajeto, percorrendo no total cerca de 770 km. Como eu tinha apenas cinco dias livres para fazer essa viagem, no feriado de 12 de outubro, tive que fazer uma media de 150 km/dia, chegando a pedalar 186 km em um único dia.

O meu objetivo era testar meus equipamentos e a resistência física para treinar para viagens ainda maiores que pretendia fazer logo no começo de 2013. Então, levei equipamentos compatíveis para uma longa jornada de alguns meses, como: barraca, saco de dormir, fogareiro, panela, talheres, lanternas extras, computador (netbook), pneus reservas, câmeras de ar reservas, ferramentas, roupas de pedal extras, roupas ‘normais’, toalha, itens de higiene pessoal, tênis de caminhada e muita comida e água. Essa bagagem resultou em uma carga aproximada de 25 kg.

Bicicleta carregada na viagem de 2012.

A BR-116 nos estados de Santa Catarina e Rio Grande do Sul é repleta de serras, com várias subidas intermináveis de até 20 km, uma atrás da outra.

O excesso de peso, somado a topografia da região e ao tempo disponível relativamente curto, fez com que o meu desafio fosse um pouco diferente e mais difícil do que havia imaginado.

Eu chegava ao destino diário perto das 9h da noite. Assim, não tinha muito tempo para procurar um local seguro para acampar. Então, nas três primeiras noites, parei em qualquer hotel ou pousada na beira da estrada. Cheguei a pagar apenas 20 reais por um quarto muito precário de uma pousada com banheiro coletivo. Em outra noite gastei apenas 35 reais por um bom quarto de hotel, com chuveiro a gás, café da manhã e acesso a internet.

Nos dois primeiros dias eu olhava no relógio a toda hora. Olhava no velocímetro e via quanto eu já tinha andado e calculava quanto ainda faltava. Isso gerou um desgaste emocional muito grande, pois cada quilometro parecia mais longo que o outro e o tempo parecia que demorava mais para passar.

A partir do terceiro dia adotei uma estratégia diferente. Parei de olhar para o relógio e para o velocímetro. Tentei aproveitar mais a viagem em si, sem me preocupar muito se eu iria chegar, nem com a data da chegada. Parei mais vezes para tirar fotos, conversar com as pessoas da estrada e para descansar aproveitando a paisagem em volta. Essa falta de compromisso com o horário me deixou mais animado emocionalmente e mais disposto fisicamente.

Na quarta noite consegui chegar ainda de dia na última parada, em Caxias do Sul-RS. Tive tempo para procurar um local seguro para acampar e passar a noite. No dia seguinte foi praticamente só descer a serra e chegar a Porto Alegre ainda no final da tarde.

Veja mais fotos da viagem anterior para Porto Alegre aqui:

Inspiração no montanhismo

Naquela oportunidade tive que aprender na prática que o objetivo principal do ciclo-turista não é o horário nem a data da chegada, mas sim atingir sua metas aproveitando o máximo de cada etapa. A aventura começa muito antes da partida. Ela começa meses antes, quando decidimos as rotas, as paradas, a alimentação, o equipamento e discutimos com amigos o planejamento para cumprir as metas do desafio.
Durante essa viagem comecei a fazer um paralelo entre o ciclo-turismo e o montanhismo.

O montanhista leva meses (muitas vezes anos) para planejar uma grande expedição e também leva meses para escalar uma grande montanha. Quando chega ao cume da montanha não existe um “podium de chegada ou beijo de namorada”. A comemoração é solitária e curta. O real prazer esta em planejar e em curtir a escalada, independente de data de chegada ou mesmo se o cume vai ser realmente atingido.

Pensando nisso, ainda em Porto Alegre, procurei um livro que falasse sobre montanhismo para entender um pouco como funciona a cabeça e a lógica dos pensamentos de um montanhista. Lá, comprei o livro K2 – Vida e morte na montanha mais perigosa do mundo, dos norte-americanos Ed Viesturs e David Roberts. Este livro conta as histórias de algumas expedições que deram certo, e outras muitas que deram errado, com o objetivo de escalar o K2. Li o livro em apenas uma semana e, já em Curitiba, comprei o livro do brasileiro Manoel Morgado, Sonhos Verticais – escalada ao Chio Oyu e Everest, no qual ele narra o dia-a-dia de suas escaladas nessas montanhas, além de algumas viagens de bicicleta e caminhadas nas bases de grandes montanhas.

Eu não tenho conhecimento prático nenhum de montanhismo, tampouco tenho pretensão de escalar alguma grande montanha algum dia. Mas nesses livros tive alguns exemplos de planejamento de expedição e superação de limites físicos e emocionais que podem ser aplicados no ciclismo. Também nessas leituras, mesmo não sendo o objeto principal dos livros, eu tive conhecimento de um estilo de escalada conhecido como estilo alpino.

Segundo o Manoel Morgado, existem duas maneiras clássicas de se escalar uma grande montanha: o chamado estilo alpino e o cerco. O estilo de cerco, de longe o mais comum, consiste em construir campos cada vez mais altos, abastecer esses campos com todo o necessário e utilizar carregadores de altitude (humanos nativos) e cordas fixas nos setores mais difíceis da montanha. Já no estilo alpino os escaladores saem do campo-base com tudo o que precisarão para a escalada, preparados para uma escalada o mais curta possível. Os campos são usados geralmente por apenas uma noite, o oxigênio artificial não é usado e não são fixadas cordas. A escalada é completada em uma semana ou menos, e isso exige uma grande capacidade de aclimatação, força física, técnica e determinação. Em caso de algo dar errado, não há backup, não há plano B (…), o escalador geralmente parte sozinho. (…).

Planejamento

Levando em conta compromissos profissionais que assumi para este ano de 2013, não poderei por em prática os meus planos de fazer uma viagem longa de algumas semanas ou meses neste momento. Então me sobraram duas opções: não viajar de bicicleta por um tempo ou fazer apenas viagens realmente curtas, de dois ou três dias apenas. Fazendo um paralelo com o montanhismo, eu pensei em aplicar a lógica do estilo alpino no ciclo-turismo. A ideia era sair de Curitiba e chegar em Porto Alegre em apenas 2 dias, sem carro de apoio.

Pedalando a uma média de 18 km/h (incluindo paradas rápidas para descanso) eu faria os 790 km previstos em cerca de 44 horas, sobrando, assim, 4 horas para dormir durante esse período. Mesmo contrariando o que aprendi na outra viagem, onde o tempo e a hora de chegada não são o mais importante no ciclo-turismo, decidi tentar realizar esse desafio para ver quais são realmente os meus limites físicos e emocionais em uma experiência extrema em cima de duas rodas.

Para isso escolhi uma rota mais longa, porém com a topografia menos acidentada, que é a BR-101 (BR-376 em Curitiba), que passa por Joinville e litoral de Santa Catarina antes de chegar ao estado do Rio Grande do Sul.

A proposta era levar apenas o essencial para pedalar, sem plano B. Roupa, apenas aquela que eu estivesse vestindo e uma capa de chuva. Ferramentas apenas para ajustes rápidos, duas câmeras de ar reservas e alguns remendos. Também levei dois celulares e seus carregadores, 3 lanternas frontais e duas traseiras, óculos para o dia e para a noite e um pouco de comida. No total, essa bagagem não chegava a 4,5 kg. Cuidei para que a minha roupa estivesse bem sinalizada com faixas refletivas para que eu pudesse ser visto a noite pelos carros.

Nos últimos 3 meses, com a supervisão do meu professor e amigo Henrique Santos, intensifiquei meus treinos de força e resistência e fiz dieta para perder alguns quilos de gordura. Uma semana antes da data prevista para a viagem, despachei algumas peças de roupa, tênis e itens de higiene pessoal para a cidade de Porto Alegre via Correios.

Depois de estudar o tempo previsto para passagem pelas principais cidades e o trânsito de carros e caminhões perto de cada uma delas, resolvi partir à meia noite de quinta-feira (0:00 da Sexta-feira Santa), com a meta de chegar em Porto Alegre no máximo até a meia noite de sábado (0:00 do domingo de Páscoa), num total de 48 horas.

Planejei dormir antes de sair no período da tarde da quinta-feira, acordar perto das 20:00 h, terminar de arrumar os últimos detalhes e sair para a estrada antes da meia noite. Essa foi a primeira falha no meu planejamento: durante a tarde eu não consegui dormir pois estava muito ansioso com a hora da viagem chegando. Mesmo assim optei por seguir o planejado e dei continuidade aos trabalhos. Terminei de arrumar os últimos detalhes e perto das 22:00, mesmo sem estar descansado, estava pronto para partir.

Partida

Meus amigos me acompanharam de carro até a saída de Curitiba.

Meus amigos (Leonardo Poffo, Henrique Santos, Diogo Raffo, Jhonatan Balchak, Marlus Bendlin e Amanda Polito) me acompanharam de carro até a Avenida das Torres, perto da saída de Curitiba. Esperamos chegar a 0:00 h em ponto.

A 0:00 hora da sexta-feira comecei a pedalar. Cerca de 20 minutos depois eu já estava na cidade de São José dos Pinhais, onde começaram os primeiros pingos de chuva. Meu velocímetro parou de funcionar logo em seguida, fazendo com que tivesse dificuldades para controlar a cadência, velocidade média e distância percorrida no inicio da viagem.
Teoricamente o trajeto entre Curitiba e Joinville é apenas de descidas, mas na prática tive algumas dificuldades em grandes subidas antes da serra do mar, como na região da Represa do Vossoroca. Cheguei ao topo da serra perto das 4:00 da manhã. Durante a descida da Serra do Mar a chuva só aumentava. Mesmo assim continuei e completei a descida em cerca de uma hora.

Queda

Logo após a descida da Serra, perto da cidade de Garuva-SC eu sofri uma queda. Para atravessar uma ponte sem acostamento tive que subir para a faixa da direta da estrada. Como a chuva estava forte e a visibilidade péssima, não vi o grande desnível entre a pista e o acostamento. Resultado: chão! Não me machuquei muito, apenas alguns ralados e um pouco de dor pela pancada, mas tive que pular muito rápido para fora da pista para fugir do caminhão que vinha logo atrás de mim.

No acidente, meus dois retrovisores caíram no chão. Quando pulei para o acostamento não tive tempo de pegá-los e o caminhão passou por cima e destruiu-os.

Sentei no chão do acostamento e fiquei ali alguns minutos refletindo se tudo aquilo valia a pena, se não era mais interessante parar por ali mesmo e voltar para casa. Depois de algum tempo decidi rodar um pouco com a bicicleta para sentir como eu estava fisicamente e como estava a bicicleta.

Aparentemente estava tudo em ordem comigo e com a bicicleta (apenas sem os dois retrovisores).  Decidi seguir viagem e tentar cumprir o planejamento, pelo menos até onde eu aguentasse.

Carro pegando fogo

Passei por um posto da Polícia Rodoviária e alguns minutos depois vi um carro que começava a pegar fogo. Voltei correndo para o posto e avisei os policiais, que disseram que iriam avisar os bombeiros da concessionária. Voltei para a estrada e cheguei no carro que estava pegando fogo. Os passageiros já tinham praticamente controlado o incêndio, mas o carro estava completamente destruído. Eu falei para um dos ocupantes do carro: “Não se preocupe que eu já avisei a polícia”. Os ocupantes do carro se olharam e um deles me falou: “O que? Você avisou a polícia? Isso não foi uma coisa legal da sua parte!”.

Não fiquei ali para saber quais os motivos de eles não quererem saber de policiais. Apenas acelerei a minha bicicleta e saí dali o mais rápido possível.

Santa Catarina

Cheguei em Joinville com uma hora de atraso. Descansei alguns minutos e segui viagem. Passei por Balneário Camboriú perto das 13:00, com duas horas de atraso. A tarde foi muito complicada. As retas intermináveis depois de Balneário Camboriú sempre me recebiam com um forte vento contra, o que fazia a minha bicicleta andar cada vez mais devagar. Passando por Florianópolis a rota já estava atrasada em 3 horas quando furou meu primeiro pneu. Fiz a troca sem maiores problemas e segui viagem.

Eu sabia que se eu quisesse chegar perto de atingir a minha meta das 48 horas não poderia dormir as 4 horas previstas, então decidi dormir o mínimo possível. Perto das 21:00 parei em uma praça do pedágio e fui muito bem atendido pelo pessoal do Serviço de Atendimento ao Usuário da concessionária. Sentei em uma cadeira e aproveitei para dormir cerca de meia hora. Mais para frente, perto das 3:30 parei em um posto de gasolina e dormi mais meia hora. As 7:00, perto da cidade de Tubarão-SC foi mais meia hora de sono em um posto da Policia Rodoviária. No total dormi perto de 2 horas. Com isso, nesse momento, eu estava apenas 1 hora atrasado.

Logo em seguida começou a bater um bom vento a favor. Eu me senti muito bem e pedalei forte, praticamente até o começo da tarde. Nesse momento mantive uma velocidade media acima dos 30 km/h por algumas horas, sem parar para descansar. Consegui recuperar bastante tempo e passei pela cidade de Osório (100 km antes Porto Alegre) 2 horas adiantado.

FreeWay

Parece que a minha sorte foi embora junto com o vento e o por do sol. Entrei na FreeWay (continuação da BR-101 que liga o litoral do RS a capital, onde a circulação de bicicletas e outros veículos de tração animal é proibida) e logo começou a escurecer. Essa estrada é totalmente deserta, não tem nenhuma loja, posto de gasolina ou restaurante. Nos cerca de 90 km, também não tem nenhum tipo de iluminação na estrada, apenas a luz dos carros passando e a da minha lanterna. A única coisa que tem a cada quilômetro é uma área de escape com um telefone público que faz uma ligação direta com o serviço de socorro da concessionária para possíveis veículos com problemas.

Eu já tinha pedalado 760 km em menos de 44 horas. Naquela hora já estava exausto. O meu corpo até estava indo bem, mas, muito provavelmente pela falta de sono, a minha cabeça já não estava controlando direito os meus pensamentos. Tentava cantar uma música para me distrair, mas não conseguia me lembrar de nenhuma sequer. Tentava calcular quantos quilômetros faltavam, mas não conseguia fazer uma conta simples de subtração. Logo em seguida furou o meu pneu.

Furos no pneu traseiro

Meu pneu furou. Parei, troquei a câmera de ar e segui em frente. Menos de 5 minutos depois o mesmo pneu estava no chão novamente. Eu não tinha mais câmera de ar reserva. Mas, com muita dificuldade pela pouca iluminação e o pensamento mais lento que o normal, consegui fazer um remendo. O minúsculo pedaço de arame causador do furo continuou preso ao pneu, pois eu não o achei na escuridão. Menos de 1 km depois o pneu voltou a furar. Eu não tinha mais forças psicológicas para trocar o pneu novamente, então fui pedir ajuda no telefone do SOS da concessionária.

O ‘simpático’ atendente do telefone me disse que não poderia fazer nada por mim, pois eu estava em um trecho proibido para bicicletas. Segui a pé, empurrando a bicicleta por cerca de dois quilômetros, até encontrar um funcionário da concessionária que estava atendendo um chamado de um motoqueiro. Esse funcionário resolveu me ajudar por conta própria, contrariando as regras da empresa. Ele me levou escondido até uma borracharia, dentro da cidade de Gravataí, uns cinco quilômetros pra frente de onde nós estávamos. O borracheiro consertou a minha câmera e não me cobrou nada pelo serviço.

Fim da linha

Saí da cidade e voltei para a estrada, com as energias renovadas. Quando já estava vendo a iluminação da praça do pedágio de Gravataí….. pneu no chão novamente! Fui empurrando a bicicleta por cerca de 1 km até a praça do pedágio.

Faltavam apenas 10 km para a entrada de Porto Alegre e outros 9 km até o ponto que marquei como objetivo da chegada. Mesmo com todos os problemas eu ainda tinha cerca de 2 horas para fazer esse percurso. Poderia ter ido a pé ou poderia tentar remendar novamente o pneu. Mas meus instintos não deixaram. Até aquele momento eu tinha certeza que poderia superar tudo o que aparecesse de problemas. Mas com tantos problemas seguidos alguma coisa me dizia que era hora de parar. Então peguei o meu celular e liguei para a minha irmã, Maria da Graça, que mora em Porto Alegre. Ela se prontificou a me ajudar e disse que iria me buscar.

Passei as últimas duas horas da minha aventura sentado esperando a minha carona chegar. Estava muito frustrado por não ter atingido o ‘cume da minha montanha’, mas por outro lado feliz por ter conseguido colocar em prática tudo o que planejei nos últimos meses.

Naquele momento eu falava para mim mesmo que nunca mais faria nada parecido, que isso tinha sido uma burrice muito grande e que eu teria sido muito mais esperto se tivesse aproveitado o feriado de páscoa comendo chocolate tranquilamente em casa.

Na volta para casa tinha um mapa da América do Sul no aeroporto. Olhando para ele vi que, num ritmo até mais lento, com mais 24 horas conseguiria chegar até o Uruguai e em outras 48 horas daria pra chegar em Buenos Aires… daria…

 

 

Agradecimentos

Agradeço a todos meus amigos que me ajudaram e incentivaram nesses últimos meses, mas em especial aos amigos Leonardo Poffo, Henrique Santos, Diogo Raffo Pardal, Jhonatan Mamado Balchak, Marlus Bendlin e Amanda Polito. Também agradeço a hospitalidade em Porto Alegre, e a ajuda num momento difícil, da minha irmã Maria da Graça Ferreira Harger e do meu sobrinho Alexandre Harger.

Veja o video abaixo:

 

Galeria de Imagens:

Mapa:


Ver mapa maior

B. Camboriú – São Francisco – Caiobá

primeira

Janeiro de 2013. Já que é com os erros e com o sofrimento que aprendemos, posso dizer que nessa viagem de bicicleta eu aprendi alguma coisa. Era pra ser uma viagem bem tranquila e sem muita preocupação com horários e velocidade. Partindo de Balneário Camboriú com destino final em Curitiba e paradas em São Francisco do Sul e Caiobá, a previsão era de pedalar no máximo 120 km por dia, assim eu teria bastante tempo para descansar e tirar algumas fotos.

Sexta-feira

No primeiro dia tudo aconteceu conforme o previsto. Saí de Balneário Camboriú perto das 11 da manhã. A viagem até São Francisco do Sul foi bem tranquila e relativamente rápida. Tive apenas um pneu furado na altura de Barra Velha e cheguei ao final da tarde no destino. O Centro Histórico de São Francisco esta muito bem cuidado, com casas e lojas muito antigas e num estado de conservação impressionante. A ideia era acampar em San Chico naquela noite, mas o camping mais perto ficava a uns 20km do centro, e eu estava um pouco cansado para procurar um lugar seguro para acampar. Então me hospedei num hotel ali mesmo no Centro Histórico, onde aproveitei para tirar várias fotos das construções antigas. Aproveitei o tempo sobrando do final da tarde e inicio da noite para ir num bar que fica atrás do Mercado Municipal onde ‘jantei’ algumas cervejas e uma porção de fritas.

Baía da Babitonga

Os problemas começaram – e terminaram – no segundo dia.

Pelo meu planejamento eu deveria fazer um percurso curto nesse dia. Então acordei tarde – perto das 9:00 – tomei café da manhã no hotel e fui fazer um passeio a pé pela cidade. Tirei mais algumas fotos, voltei para o hotel e arrumei as coisas para seguir viagem. Pelo planejamento eu iria pegar uma lancha para atravessar a Baía da Babitonga (entre as cidades de São Francisco e Itapoá). Porém a próxima lancha só iria partir as 16:00 horas. Eu achei que teria que esperar muito, então fui atrás de um plano B. A segunda opção era pegar o Ferry Boat, mas o ponto de partida era a 20km a oeste de onde eu estava. Achei que valia a pena andar esses 20km a mais e fui até o Ferry Boat. Cheguei perto de 12:40 no Ferry. Porém a próxima balsa só partiria as 14:00. Aproveitei o tempo para almoçar um peixe, já cozido, que eu levava em minha bagagem.

35km em estrada de chão

Ao final da travessia já passavam das 15:00. Foi quando eu percebi o obvio. Eu teria que voltar os 20km a mais que eu andei para pegar o Ferry, com o detalhe que esse trecho – e mais cerca de 15km – era todo em estrada de chão. Eu até prefiro andar por estradas de chão, acho muito mais divertido e emocionante, mas essa estrada estava num estado muito ruim, com um buraco atrás do outro, onde eu não conseguia andar a mais de 10km/h. Provavelmente o peso da carga e os solavancos da estrada causaram um desgaste no meu equipamento – que já tem alguns quilômetros rodados – pois logo em seguida eu comecei a ouvir alguns sons estranhos vindo da minha roda. Não demorou muito e as minhas marchas começaram a trocar sozinhas. Parei para analisar o problema e vi que a catraca da bicicleta estava torta em relação ao eixo da roda. Com uma chave de fenda alinhei a catraca e consegui andar mais alguns quilômetros sem muitos problemas. Mas logo em seguida o problema voltou, e pior. Já perto da praia de Itapoá parei novamente e vi que a catraca estava bem fora do seu eixo, analisando melhor vi que ela estava solta do resto da roda, assim eu girava o pedal e a corrente, mas a catraca não transferia toda a força para a roda, girando em falso.

Chegada em Caiobá

Para fazer a bicicleta sair do lugar eu tinha que torcer para uma marcha engrenar e pedalar muito além do normal para fazer alguns poucos quilômetros. Consegui com muito custo chegar até a cidade de Guaratuba, uns 40km a frente. Lá, atravessei a cidade e fui empurrando a bicicleta até o Ferry Boat que leva até Caiobá. No Ferry Boat consegui uma carona com uma família que estava em uma caminhonete S-10 com a caçamba vazia e fui de carona até a casa de meu amigo Marcelo Balam em Caiobá, chegando perto das 22:00.

Desistindo de finalizar a viagem

Na casa do Marcelo desmontei a roda e constatei que os pequenos ‘dentes’ que prendem a catraca no eixo da roda estavam todos quebrados. Como o dia seguinte era domingo e não tinha nenhuma bicicletaria aberta para comprar outra catraca, não me restou outra opção a não ser desistir do resto da viagem.

Voltei de carona com o Marcelo para Curitiba na segunda-feira. Infelizmente na hora do apuro com os problemas na bicicleta não lembrei de tirar fotos da estrada de chão e da bicicleta quebrada. Mas pelo menos aproveitei um domingão de sol na piscina da casa do Marcelo em Caiobá, regado a caipirinha e queijo com orégano.

 

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Balneário Camboriu – Curitiba em 1 dia

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Subida da serra de Balneário Camboriu a Curitiba – 250km em 1 dia.

 

 

 

 

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Primeira Viagem – Curitiba – Guaratuba – Balneário Camboriu

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Carnaval de 2011 – 330 km em 2 dias

 

 

 

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Curitiba – Porto Alegre – 5 dias pela BR-116

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Viagem de bicicleta entre Curitiba e Porto Alegre pela BR-116 em 5 dias  feita em outubro de 2012.

No dia seguinte a minha chegada em Porto Alegre fui até a cidade de Guaíba – que fica do outro lado do Rio Guaíba – com o meu amigo Nelson.

 

 

 

 

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